Sempre acreditei que fazer revistas ia além do ato de encadernar páginas. Por isso, decidi estudar Desenho Industrial com Habilitação em Programação Visual, nome pomposo para o tal Design Gráfico. Acabou que o mundo deu voltas, o tempo passou, minhas idéias mudaram, e hoje, o que menos faço é design de revista. Não construo grids, não penso em capas, não numero páginas. Nada disso faz parte da minha rotina, que está mais próxima do design promocional e corporativo. Marcas e sensações fazem parte do meu dia. E eu adoro isso!

exposição pouca é bobagem...
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Não é por que me afastei do design de revistas - sim, já fiz alguns projetos - que deixei de apreciá-las, observar e criticar. Taí o blog como prova e como incentivador de pesquisas e olhares menos superficiais. Toda a bagagem adiquirida durante a faculdade transborda por aqui, e hoje, vou falar justamente de uma das revistas que mais gosto - conheci na faculdade - e infelizmente não tenho nenhum dos números. A incrível e insuperável Ray Gun.
algumas capas - notem que o número da edição era usado por eles, e foi aplicado no Trip Provalmente, a grande maioria nunca ouviu falar dela, mas já sentiu seus ecos em milhões de outros projetos. O designer-surfista David Carson mudou um geração e construiu uma nova estética para o design. Influenciado pela cultura grunge da década de 90, pelos trabalhos de Nevile Brody e pelo mundo em que vivia, David desconstruiu tipos, reinventou a composição e incluiu milhões de tons e texturas no mundo fotográfico. Estava aberta a temporada de letras ilegiveis e filtros sobre fotografias.
Beach Culture - o começo da desconstruçãoO projeto mais memorável de Carson é a Ray Gun, uma revista balizada em música, arte e estilo de vida. Uma coisa muito próxima da Trip - que merece um parágrafo próprio logo a frente. Na Ray Gun, o design "Não Canônico" foi usado exaustivamente, cortes absurdos, parágrafos destruídos, letras enormes ou minúsculas. Tudo era possível, tudo se justificava dentro de um projeto sem amarras, sem grid, mas com muita personalidade e ousadia. Exatamente o que os jovens da época esperavam e como o próprio Carson havia anunciado na Beach Culture - revista em que trabalhou.


assim é que se abre uma matéria...A Ray Gun não durou muito, foram 60 números lançados entre 92 e 2000, e no decorrer desses anos muitas ousadias foram abandonadas, a revista precisava enxugar seu estilo que já não era tão coerente com a época. Mas mesmo assim, deixou seguidores que até hoje usam e abusam da desconstrução proposta por Carson. O que nem sempre gera bons resultados.
um pouco do estilo Carson, que tanto é copiadoNo Brasil, a Ray Gun refletiu na Trip, que sofreu, em 1997, redesign pelas mãos de David Carson, e absorveu um projeto extremamente poluído, complexo e mal compreendido pelos brasileiros, que logo foi abandonado. Sobram desse projeto a marca e alguns pequenos maneirismos gráficos, que estão cada dia mais raros.
expediente e índice. Sim, este é o índice da revista...O motivo de adorar é Ray Gun é simples: só quem sabe fazer design/revista muito bem, é capaz de descontruir o objeto dessa maneira e ainda torná-lo crível e vendável. Só sendo muito bem posicionada para colocar uma matéria inteira com dingbats (aquelas fontes com desenho), pelo simples fato de tê-la achado enfadonha. Ou então, cortar as palavras e parágrafos que bem entendesse do texto. Tudo isso refletia o espírito contestador e irresponsável de uma geração que se formava.

ler? para quê? O importante é ver... Muitas dessas imagens foram encontradas neste blog, que conta um pouco da história da Ray Gun.