quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Escola Marisa Monte de Fotografia


por Rusvel Nantes

Uma menina me ensinou quase tudo que eu sei. E essa menina (hoje, uma jovem senhora) atende pelo nome de Marisa Monte.
Há alguns anos, um amor, desses que duram tempo suficiente pra ficar na memória e nos acompanhar, me presenteou com a Bravo! de novembro de 1998, quando Marisa apareceu pela primeira vez na capa da publicação. Em 2006, ao lançar Infinito Particular e Universo ao Meu Redor, outra capa. Agora, em turnê pelo Brasil com o show Verdade, uma ilusão, ela é destaque mais uma vez. 

A postura da Marisa sempre me chamou atenção: suas declarações, seu estilo de vida, suas parcerias, escolhas, repertório, o modo de conduzir a carreira e todas as tensões em torno de uma figura pública que consegue manter a vida privada longe dos holofotes.
Certa vez, numa aula sobre indústria cultural, um professor me questionou se era possível estar em dois lugares ao mesmo tempo: ou você compactua com determinado modo de produção, ou está fora. Na verdade, era uma provocação (recalque, talvez) pois, para ele, Marisa participava do esquema como qualquer outra cantora. Para mim, mesmo seguindo as regras do jogo, ela sempre trilhou um caminho independente, livre de certas concessões. 
Esse embate acabou virando tema da minha pesquisa de mestrado, defendida em abril de 2011, meses antes do último disco dela - O que você quer saber de verdade - chegar às lojas. Na dissertação, intitulada Intimidade performada: a gestão da visibilidade em "Memórias, crônicas e declarações de amor", de Marisa Monte, eu traço um perfil da artista. Perfil construído a partir daquilo que ela expõe por meio do próprio trabalho e o que é veiculado pela imprensa.

 E o que é que a gente não faz por amor?
As revistas qualificam o trabalho da Marisa como autônomo. De modo geral, ela é descrita como empresária do mundo da música que conduz a carreira com disciplina e perfeccionismo. A própria Bravo! faz isso desde 1998. E é interessante notar como a Marisa lida com essa imagem de diva. Nas páginas da Bravo! deste mês, ela reina diante das lentes de Ton Munro. Sedutora, dentro de sua beleza disfarçada de simpatia, ela contrasta a altivez impressa nas fotos com depoimentos que a colocam num patamar que lembra aquele tipo de mulher que os norte-americanos definem como "the girl next door" -  a garota que, de tão amistosa e parecida com a gente, poderia ser nossa vizinha, conforme definiu Armando Antenore, redator-chefe da revista.

É só mistério, não tem segredo

Eu poderia analisar as fotos, a diagramação, a tipografia e todo o aparato técnico que interessa ao DasBancas. Mas comparando o intervalo de 14 anos que separa a capa de 1998 e a de 2012, prefiro me ater à questão da representação. Nessa perspectiva, é possível dizer que nada mudou. Marisa usa a estratégia de sempre: vestida com pontual exuberância, sempre com algum adereço que enfatize suas poses, ela varia o repertório de gestos e olhares. Repertório que ela criou para si mesma e tratou de aprimorar ao longo dos anos. Marisa sabe encarar a câmera. E pra quem não lembra, ou ainda não conhece, no ano 2000, quando a tal web 2.0 ensaiava seus primeiros passos (muito antes do Facebook e do Twitter) ela lançou um livro com centenas de autorretratos muito parecidos com aqueles que nós publicamos diariamente no Instagram. 

Ser gentil com a própria figura, mas sem frescura, mesmo quando a gente não sai tão bem na foto. É o que eu chamo carinhosamente de Escola Marisa Monte de Fotografia,  uma escola de valores. Pois foi observando o trabalho dela que eu desenvolvi um olhar para o design, encontrei uma profissão, uma maneira de me colocar no mundo. Através da imagem dela também aprendi que, diante da ostentação e do deslumbramento, uma vida low profile faz muito mais sentido, que a intimidade deve ser compartilhada com poucos e que simplicidade não é uma questão de com quanto você vive, mas o que você faz como que ganha, sobretudo com o tempo que você dedica a perceber e se encantar pelas coisas e pessoas que te cercam. A música é só trilha sonora.

Deixa eu dizer que te amo, deixa eu pensar em você
Acho que enquanto ela servir de pretexto pra eu falar de mim mesmo, terei boas histórias pra contar.

Rusvel Nantes é jornalista, webdesigner, mestre em comunicação e apaixonado por Marisa Monte.  

7 comentários:

Rodrigo disse...

Queria ter o prazer de ler sua dissertação.

Raquel Carneiro disse...

Também queria ler sua dissertação! Muito bom o post :)

Eufrasio Vieira disse...

Tb sou fã confesso da Marisa e adorei seu texto Rusvel.

Flavimar Dïniz disse...

O que mais gosto na Marisa é que ela sempre foi ela mesma, desde os primeiros trabalhos. As características principais, as mais marcantes, estão lá desde sempre. Ela não se reinventa a cada trabalho, como muitas por aí. E nem acredito que ela tenha criado uma imagem no início da carreira e se mantenha nela até hoje. Creio mesmo que ela é exatamente como os fotógrafos a retratam, como escrevem sobre ela: calma, centrada, meio perfeccionista, segura... Talvez por isso ela tenha criado essa imagem tão marcante dentro da MPB, uma "escola Marisa Monte de como ser artista", escola essa que já tem formado várias outras cantoras por aí...

Amanda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Amanda disse...

Adorei o texto e como Rusvel fala da Marisa. Parabéns!

Marcela disse...

Como eu amo essa mulher...

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